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Rascunho Literário

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Rascunho Literário

Um recanto de amigos, para falar sobre (talvez fazer) literatura.

Membros: 1
Última atividade: 18 Fev, 2010

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Comentário de Nick em 18 fevereiro 2010 às 17:21
Leia com atenção:

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Dona doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso,
com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Leu? Percebeu? Se não percebeu, leia de novo, de novo, de novo.
Fico impressionado como esta autora consegue aurir dos fatos mais cotidianos e simples as mais belas expressões poéticas. Sempre gostei de poesia, e dos poetas, pois eles são as pessoas que conseguem transformar em arte aquilo que todos sentimos. Porém Adélia supera.
Ao lê-la descobri de verdade o que é poesia: é o sentimento expresso pelo poeta, o lirismo que exala quando lemos o poema. Poesia não são as palavras, nem o que se quis dizer, mas o que se entende.
Todos nós um dia pintamos, ou pagamos para pintar nossas casas, pensamos na importância dos estudos para nossa vida, observamos a chuva. Porém quantos de nós somos tocados por esta beleza cotidiana? Perceber isto é divino, sagrado, e somente pelo transe poético o autor consegue apanhar este momento de realidade eterno.
leituras como esta nos engrandecem, pois ajuda-nos a perceber a beleza que se esconde no nosso dia-dia e refletindo podemos fazê-lo mais leve.
‘Beleza não é luxo, é necessidade’, Adélia Prado.
Comentário de Nick em 18 fevereiro 2010 às 17:18
Leu? Percebeu? Se não percebeu, leia de novo, de novo, de novo.
Fico impressionado como esta autora consegue aurir dos fatos mais cotidianos e simples as mais belas expressões poéticas. Sempre gostei de poesia, e dos poetas, pois eles são as pessoas que conseguem transformar em arte aquilo que todos sentimos. Porém Adélia supera.
Ao lê-la descobri de verdade o que é poesia: é o sentimento expresso pelo poeta, o lirismo que exala quando lemos o poema. Poesia não são as palavras, nem o que se quis dizer, mas o que se entende.
Todos nós um dia pintamos, ou pagamos para pintar nossas casas, pensamos na importância dos estudos para nossa vida, observamos a chuva. Porém quantos de nós somos tocados por esta beleza cotidiana? Perceber isto é divino, sagrado, e somente pelo transe poético o autor consegue apanhar este momento de realidade eterno.
leituras como esta nos engrandecem, pois ajuda-nos a perceber a beleza que se esconde no nosso dia-dia e refletindo podemos fazê-lo mais leve.
‘Beleza não é luxo, é necessidade’, Adélia Prado.
 

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